Das árvores

Naquele lugar as árvores possuem sopé em forma de vaso. São como um poste no expressivo no topo do qual crescem raios, traços ziguezagueantes bojudos ou tracejantes. Ou farfalhantes como cabeleiras encarapinhadas ou electrificadas. Vi algumas feitas de sorvete derretido, outras crescendo em telescópio, mas o mais habitual é vê-las terminando em pequenos ramos como dedos em súplica ao céu. Pode ser que seja apenas ponto de contacto, modo de ligar na paisagem desenhada a terra barrenta ao céu azul de cor directa. Deve ficar afirmado antes que esqueça, aquele lugar é a preto e branco, mas sofre de sazonais coloridos. Dirão: não nascem árvores como as conhecemos, de raízes enterradas no solo, tronco largo e copa frondosa, assim como embondeiro, plátano ou carvalho? Responda-se que sim. Uma espécie de embondeiro serve muitas vezes de ponto de encontro dos habitantes daquele longínquo lugar que dista não mais de um palmo se contado a partir do livro. Quando assim é, a copa parece desaparecer no desenho do céu. Raras são as de fruto. Quase todas mergulham em vaso de um barro ancestral e decorado à maneira de um sul não menos antigo. Como se um grande encenador, não contente com o natural do sítio, resolvesse pela sua mão acrescentar flora. A maioria continua esticada como indicado, terminada em ziguezagues que marcam o alto com riscos de máquinas de costura voadoras. O objectivo, se o possuem, aparece como sendo esse mesmo: escrita ou desenho no pano dos céus. Queda-se o baixo ligado ao alto por estes traços, movediços por força do vento, pela intervenção dos habitantes. Quem sabe se não são as árvores que impedem o céu de se rasgar. Quem sabe se não servem para prender relâmpagos e nuvens. Pedras há que gostam de imitar as árvores.

JOÃO PAULO COTRIM

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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