A importância de se chamar confronto

Convidou-me o meu adversário ideológico e camarada de jornalismo Nuno Ramos de Almeida para escrever um texto sobre a importância do confronto de ideias nos blogues. Aceite o desafio, algo precipitadamente, há que responder com o mínimo de elevação. Aviso prévio: não utilizarei aqui expressões como “antro de esquerdistas”, “reaccionários neo-marxistas”, “saudosistas de esquerda” – e outras que tais. Prefiro acreditar que não estou a cair numa armadilha ardilosamente montada.
Quando perguntam de que blogues sinto hoje mais falta, quase três anos depois de entrar neste glorioso mundo, respondo sem pestanejar: um era de direita e dois de esquerda. Coluna Infame, Barnabé e Blogue de Esquerda, por esta exacta ordem. Foi em grande medida o desaparecimento do primeiro e a extrema influência dos seguintes que me levou a criar O Acidental, esse sim, um assumido antro de perigosos direitistas. Existindo já outros blogues de centro e de direita, parecia-me talvez erradamente que os dois nichos de esquerda dominavam a cena. Facto: eram os que mais visitava. Podiam irritar, mas faziam pensar. Pode ser simplista ou um lugar-comum, mas acredito que da discussão pode nascer a luz.
O confronto de ideias é o sal e a pimenta da blogosfera – como da democracia. Há quem as prefira insossas, moles, institucionais, cinzentas, adormecidas, sem “dicotomias” – palavra sinistra – entre esquerdas e direitas. Mas apenas por interesse próprio, por pura razão de mercado, porque o mercado de ideias na comunicação social tradicional ainda está nacionalizado ao centro – o vulgar centrão, buraco negro das ideologias – e só se abre às diferenças por excepção.
O mercado das ideias tem de ser liberalizado e a blogosfera é uma opção amplamente revolucionária. Porque representa uma nova oportunidade para o debate, para além dos condicionalismos dos partidos e do discurso politicamente correcto. Mesmo que excessiva nas opiniões e nos termos, muitas vezes despachados à velocidade de um clique. É isso: a blogosfera pode ser um clique democrático.

PS. Sosseguem os espíritos mais inquietos: não me rendi às esquerdas. Produto sobretudo da iniciativa do Rodrigo Moita de Deus vem aí o 31 da Armada. Muito mais do que um blogue. Aproveito ainda esta oportunidade para fazer publicidade à revista Atlântico – hoje nas bancas – e ao respectivo blogue. Muito obrigado.


Paulo Pinto Mascarenhas

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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