O legado de Isaiah Berlin

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Uma das coisas que suscita curiosidade sobre a China é saber como são a televisão e as livrarias – isto é, como é a liberdade de imprensa. Nos hotéis onde estive apanhavam-se geralmente cerca de trinta canais – quase todos em mandarim, um canal chinês falado em inglês e, ocasionalmente, canais internacionais, como a CNN, ou outro que não recordo em que uma noite vi dois episódios seguidos do Curb Your Enthusiasm. A ementa dos canais chineses não parece muito diferente da dos congéneres do lado de cá. Todas as noites havia concursos televisivos do género festival da canção, semelhantes às coisas que a Catarina Furtado tem apresentado ao longo da década, só que em estúdios maiores, ou ao ar livre, com milhares de pessoas. Um programa preferido era assistir a uma novela com uma estética venezuelana (muita emoção, muitas lágrimas, algum sangue), mas transposta para um cenário shogun, com guerreiros, mortes e ressurreições. Entretenimento garantido, mesmo em línguas exóticas. O canal chinês em inglês, no qual eu perdia mais tempo, apresentava uma vez por semana um debate entre dois académicos (por vezes, meros estudantes de doutoramento) sobre temas candentes da actualidade como: «estarão os jogos de computador a prejudicar os nossos filhos?», e outros assuntos sociais afins. O lado bizarro do debate estava em que ambos os debatentes eram chineses, e o moderador também, todos em dificuldades para se exprimirem em inglês – e discordando pouco. O noticiário da noite era parecido com a SIC-Notícias, na forma e talvez no conteúdo. Não há críticas ao governo, naturalmente, mas não se nota que a informação siga linhas muito diferentes das daqui.

Agora, o prato forte da noite era o documentário histórico, todas as noites, tecnicamente bem feito, com imagens de arquivo e depoimentos de testemunhas. Embora cada noite fosse um documentário diferente, o tema andava sempre à volta do mesmo: as tropelias que os japoneses fizeram aos chineses (na II Guerra Mundial, na guerra da Manchúria, etc.), a forma como o chinês resistiu, como se levantou perante a opressão, como recuperou o orgulho e a dignidade nacional. Noite após noite apareciam no ecrã velhinhos e velhinhas – ou combatentes, ou meros civis – que contavam como os japoneses criminosos, os japoneses selvagens, os japoneses porcalhões, lhes tinham cuspido em cima, pisado com a bota, assassinado a família, pai, mãe, irmãos, esposa, filhos. Quis-me parecer que no facto de um canal do Estado (cela va sans dire) chinês, dirigido a comunidades que não falam chinês por toda a Ásia, se dedicar à recriminação histórica do Japão noite após noite deve estar inscrita alguma mensagem geopolítica importante.

As livrarias, por seu lado, decepcionaram-me um pouco. Esperava, sobretudo de Xangai, mais internacionalização, maior cosmopolitismo, mais livros disponíveis em inglês sobre a China. A escolha não era muita e era errática. O livro que, ao fim de algumas investigações, cheguei à conclusão de que deveria ler sobre a China, nunca o encontrei disponível. A biografia de Mao que se encontra agora em todos os aeroportos do mundo ocidental, e que o nosso professor Cavaco adoptou como leitura de férias (para quê?), não se encontra na China. Mas os Cisnes Selvagens, da mesma autora, em edição inglesa, está em muitas livrarias. (A explicação parece ser que os Cisnes Selvagens é sobre o bando dos Quatro e não sobre o Mao, distinção que, embora subtil, ao que parece faz toda a diferença.)

Um dia entrei numa livraria de um grande centro comercial em Xangai, onde no fim de contas os livros em inglês eram apenas livros de aprendizagem de inglês, e acabei por tirar uma foto desta montra, que me pareceu curiosa. São dois livros de edição chinesa. Um é O Demónio do Meio-Dia, um livro sobre a depressão que tem feito o maior sucesso por toda a parte do mundo (tanto quanto sei, não está traduzido em Portugal, mas apenas no Brasil); o outro, ensaios em homenagem a Isaiah Berlin. E, globalmente, pareceu-me que os liberais do Blasfémias teriam mais facilidade em editar uma colectânea de textos na China do que, digamos, a esquerda «que a direita detesta» do velho Barnabé.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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