Quando o Norte, afinal, é pobre…

Autor:
Carlos Trincão 
 

Presidente da Associação de Estudantes da Escola Superior de Educação de Coimbra em 1977/78.  Conselheiro Nacional da FENPROF entre 1989 e 1995 Adjunto do Presidente da Câmara Municipal de Tomar, de 1996 a 1997, e responsável pelos Serviços Municipais de Animação Cultural até 1999.

 Com Urbano Figueiredo, partilha responsabilidades na direcção da revista cultural “tomar à letra” e da revista literária “Entreletras”.

 Membro da Assembleia Municipal de Tomar.

 

Quando o Norte, afinal, é pobre…

 

Atravesso o Estreito em rápida e confortável viagem, num moderníssimo ferry de alta velocidade cheio de espaços amplos e luminosos.

Aqui é África – e o clima vai lembrando isso mesmo: calor e humidade em doses menos habituais. Aqui é Norte. Um norte de África europeu já distante do norte de África que fica pouco mais diante, do outro lado da fronteira, em Marrocos.

Saio do porto, ultrapasso o portão, viro à direita, percorro a avenida tracejada pelo atraque dos ferries, bombas de combustíveis, escritórios e agências de vendas de bilhetes para Algeciras, Tânger e outros portos das vizinhanças. Depois abre-se-me a marina, adiante. Uma curva à esquerda. A ponte. E Marrocos para a direita.

Hoje é domingo, dia de mercado em tudo quanto é cidade, vila ou estrada. E na primeira vila por onde passo, Sebta, espanto-me por cada metro quadrado do que quer que seja – passeio, estrada, rua ou largo – ser evidentíssimo ponto de comércio.

Quarenta quilómetros adiante, fica Tetouan. Até lá, e na primeira quinzena deles, bordejando o Mediterrâneo, sucedem-se os complexos turísticos e os hotéis de alto quilate: Club Med, Al Amin, Kabila, Los Patos… Algumas empresas estrangeiras construíram aqui as suas exclusivíssimas estâncias de férias, ao que julgo por a oferta, mesmo assim, ser pobre para as exigências dos poderosos do Ocidente Cristão.

Acabam os complexos de lazer e logo do outro lado do muro de cada um estaciona o lixo e a sujidade. É uma constante, aqui, a pobreza, o lixo, a precariedade. Nem se darão conta, muitos!, de quão pobres são…

Um dinar vale dez cêntimos, mas creio bem que dez cêntimos podem ser quase meia fortuna para muitos, ou, então, como compreender que uns amarelíssimos cinquenta com que pago a uma vendedora, algures no labirinto de tetouano, abram um sorriso de lés a lés e passem de mão em mão entre as companheiras?

Não imagino sequer o valor que lhe passo para as mãos, até porque nem espero troco nem percebo árabe para dizer algo; mas percebo que os cinquenta cêntimos são “muito demais” para o que aqui é uso pagar. E logo em moeda forte!

Até aqui, nesta já enorme cidade, fora das muralhas, na zona das avenidas mais largas e europeizadas, o pó, a terra e o lixo são presenças constantes… Junto a uma das portas de entrada na medina, aglomeram-se as pessoas e os burros carregados de carvão, combustível barato, mais acessível também por o fogo de lenha ser ainda mais frequente que o fogo de gás.

Intra-muros palpitam quinze (!) labirínticos quilómetros quadrados de muito trabalho em minúsculas oficinas e pequeníssimas lojas. A palavra artesão assume, então, o significado que sempre teve desde tempos imemoriais, mas que, agora, tão descaracterizado anda noutras latitudes.

Os cheiros, aqui, são de tudo; e ora se sentem num todo, ora se espalham em múltiplos odores. E aqui vivem também quinze quilómetros quadrados de venda ambulante. Personalizada, pois que os vendedores se deslocam metros e metros sem fim, carregados das suas bugigangas, tapetes e tudo o mais, até que desistam pela indiferença do cliente ou ambos cheguem a acordo.

Nunca se sabe o valor exacto, mas o preço final pode bem ser a décima parte do inicialmente pedido. Ainda assim, sobra a convicção de que o que se pagou, por pouco que nos pareça, é muito para quem vende.

E tudo se repete em Tânger, sessenta quilómetros em direcção ao Atlântico, cidade de fortes sonoridades, nome mítico recheado de histórias, mitos e lendas.

Do avarandado do Hotel Continental respira-se o ar da África temperado com os sopros da Europa que chegam do outro lado do Estreito. Daqui, a vista para o porto franco não dá ideia das ruas tortuosas ou do emaranhado dos becos, nem das sombras que se sucedem na medina. Daqui, a vista para o porto, símbolo da abertura comercial e memória da cidade branca e internacional, evoca as outras ruas, cafés e hotéis por onde passaram Tennessee Williams ou Becket, recorda os palácios em que Forbes gozou a sumptuosidade de festas inenarráveis, imita a luminosidade que inspirou Matisse.

E toda a pobreza se repete em Tânger.

Agora, ao fim do dia, passando em revista as compras ambulantes, contabilizo colares, carteiras, túnicas, sacos e cerâmica num total de uma centena de euros que serviriam sei lá para quantos meses de uma daquelas sofridas mulheres que, em dia de mercado, descem das montanhas às ruas das cidades a vender o esforço de todos os outros dias…

 

 

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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