O melhor livro de sempre sobre o PREC

sorciers1.jpg

O melhor livro de sempre sobre o PREC é o pior livro de sempre sobre o PREC. Escrito em francês em 1975, foi editado numa colecção rasca da Plon (que edita muitas mais colecções rascas, embora nenhuma tão má, isto é, tão boa como esta) – uma colecção que se chama S.A.S. e que é escrita por um proletário da sub-literatura que assina com o pseudónimo à particule de Gérard de Villiers. Os livro da S.A.S. põem em cena uma espécie de James Bond bon marché, que no caso é um russo (branco) chamado Malko (ou para ser mais exacto Sua Alteza Sereníssima o Príncipe Malko, daí o S.A.S.), que se passeia por toda a parte do mundo onde há confusão, ao ritmo de um livro cada três meses, no essencial para consumir pequenas e dar uma mãozinha aos freedom fighters locais. Durante a guerra fria, como seria de esperar, tratava da saúde aos russos (vermelhos) nas mais diversas latitudes, agora contenta-se com o que há (sérvios, norte-coreanos, iranianos, etc.). Ora em pleno PREC, Malko veio até Lisboa e de Villiers escreveu o imbatível, o impagável, o insuperável Les Sorciers du Tage, e os happy few que tiveram o privilégio de então o ler ainda hoje lhe prestam culto (teve também, logo em 76 ou 77, uma tradução portuguesa, publicada por uma editora fascistoide chamada “Literal”, com uma capa horrorosa, mas que depressa se sumiu).

Qual é a graça dos Sorciers du Tage? Muitas e variadas: Primeiro que tudo, é uma antologia notável dos lugares comuns franceses sobre Portugal: TUDO é mal escrito, e/ou à espanhola, todos os clichés estão lá, toda a crassa ignorância convencida & atrevida dos franceses lá está, e o livro é tão caricatural que chega a parecer que foi feito por um português mais sabedor a gozar com a maneira como os franceses nos vêem… (numa espécie de jogo de espelhos ad infinitum). Depois, o maniqueísmo político é igualmente grotesco, parece George Bush avant la lettre, mais um episódio das Forças do Bem contra o Eixo do Mal. Em terceiro lugar, os erros (e não me refiro só aos de português), de serem tantos, acabam por incluir alguns divertidos, como a descrição do MRPP como um fantoche do PCP, isto dito por um tipo da CIA (!) – o que permite imaginar, num exercício de história contrafactual, que o Dr. Durão Barroso alguma vez foi de esquerda… Parece claro que o grande de Villiers visitou Lisboa e, embora troque a toponímia toda, tem uma noção vaga do que fica aonde e foi a um monte de sítios conhecidos: o Grémio Literário, o Tavares, a Tágide, etc.; mas a inspecção dos locais foi certamente sumária, porque o livro mistura tudo e todos de uma forma tão inverosímil que acaba por exalar um perfume surrealista que é um dos seus trunfos mais fortes. Enfim, imaginem tudo isto a 1.000 à hora, num livro série Z, que se lê compulsivamente…

O princípio – Maio de 75. Dia quente e poeirento. Ao aeroporto da Portela chegam todos os dias 500 retornados de Angola e ainda há 250.000 à espera que os vão buscar. Perto dali, junto ao Ralis, um bando de MRPPês ululantes manifesta o seu apoio aos militares revolucionários e pede fuzilamentos. Entre eles está Joe Walker, fotógrafo part-time e operacional da CIA no resto do tempo. Estava ali à procura de um dos seus contactos, Guadeloupe Sanchez, que não aparecia no encontro marcado. Quem sabe se já teria ido al paredon… Joe cuspiu para o chão, como via os portugueses fazer todo o tempo. –Abaxa O fascismo!, gritavam os manifestantes de punho no ar, mas Joe já mal os ouvia. Nisto, porém, vê Guadaloupe sair do quartel, rodeada por dois soldados barbudos de G3 na mão. Teria estado presa? Agora não podia perdê-la: parece que ela tinha uma informação importante para lhe dar sobre um golpe comunista em preparação. À vista da sua elegância burguesa, o clamor da turba redobrou e os soldados tiveram de lhe abrir caminho até ao seu carro, que rapidamente foi rodeado pelos manifestantes. Joe nada podia fazer. Guadaloupe entrou para o carro quando a multidão começou a gritar: –PIDE! PIDE! Era o nome da odiada polícia política de Salazar, e seria difícil a Guadeloupe sair dali viva se a confundiam com um dos seus esbirros. Ouvem-se tiros, e Joe percebe que Guadeloupe foi atingida e é retirada do carro. Estaria viva? Para onde a levariam? O que saberia ela – e o que saberiam os comunistas que ela sabia? Precisava de sair dali e avisar quanto antes a Company do desaparecimento da sua preciosa informadora.

O contexto – A CIA tinha de recuperar o terreno perdido em Portugal. Primeiro tinha-se deixado surpreender, agora enviava os seus melhores homens para travar a influência dos soviéticos, enquanto era tempo. A luta era desigual: os russos tinham chegado em força, e contavam com a ajuda dos comunistas locais e dos militares barbudos, enquanto a malta da CIA, embora muito mais simpática e apoiada pela grande maioria do povo, era apenas um punhado de valentes. O ambiente não era ainda de ditadura totalitária, mas para lá caminhava, se nada fosse feito (foi).

As equipas – De um lado está a CIA, The Company, assistida em Lisboa por Sua Alteza Sereníssima, acompanhado do seu fiel criado turco, que manejava tão bem a parabellum como o ferro de engomar. Sob as suas ordens trabalhavam Joe, o tipo do aventureiro bogartiano, e Ibrahim Salvador, um operacional brasileiro que gostava do seu métier, aprendido na luta contra a guerrilha urbana, e cujas vítimas preferiam morrer depressa a demorar muito tempo nas suas mãos. Havia também alguns portugueses ao seu lado, sobretudo portuguesas, sob a dupla influência do amor pela liberdade e do magnetismo animal que S.A.S. irradiava: a jovem Amália (mas as portuguesas não se chamam todas Amália?), telefonista no Grémio Literário (e que protagoniza uma cena tórrida de sexo oral no PBX da veneranda instituição, era por ele ser grande e ela estar sentada e ser pequenina que fazia aquilo, o autor estava certamente ao corrente de que se tratava de um lugar comum mas não obstante, é preciso dar ao leitor aquilo que ele espera) e Maria da Costa, a belíssima mulher de um banqueiro preso em Caxias, que ela visitava sempre de negro vestida, era uma espécie de Pasionária da reacção, e que também (explica o autor que apenas pelo seu estado de carência sexual, em absoluto desaconselhável a belíssimas mulheres de banqueiros presos) não resistiu a um breve porém acrobático intercourse com Sua Alteza no pequeno Austin Mini de que se servia nas suas peregrinações a Caxias. Contra eles, o KGB enviou Nicolas Grifanov, em teoria Terceiro-Secretário na Embaixada da URSS mas na realidade Coronel na Lubianka, especialista em sabotagem e liquidação, conhecido até entre os seus colegas pela sua brutalidade e grosseria, coadjuvado de Youri Frolov, especialista da contra-informação, que almoçava duas vezes por semana com o coronel Gonzalez, chefe dos comunistas, do checo Radko, um molosso que pedia meças a Ibrahim, e de Natacha, jovem recruta do KGB, plena de uma sensualidade que nem os seus mal enjorcados trapinhos made in USSR conseguiam ocultar e que o experiente Malko cedo decidiu castigar à sua maneira; ainda do lado dos maus, um big shot do MRPP que na verdade estava feito com o PCP e dava pelo improvável nome de… Feytor-Pinto!

As melhores cenas (à parte as de sexo) – Para mim as melhores são duas: A primeira passa-se à noite, num depósito imaginário da Carris que ficava junto ao Tejo, a 500 metros do Palácio de Belém, e onde o Ibrahim quer fazer cantar um comuna (trata-se de António, escanção do Hotel Mundial e bufo do KGB, que ao princípio lhe diz: “-Va merda, fascisto!” e só no fim, tarde de demais, grita a célebre interjeição portuguesa: “-Madre de Dio!”); depois de atá-lo devidamente, e com a ajuda de um comparsa (que não é senão o valet de chambre de Malko), mete-lhe a cabecita teimosa sem ninguém ver em cima de um carril enquanto vai fazendo um eléctrico avançar devagarinho, porém… hélas, os eléctricos portugueses são antigos e os seus travões nem sempre funcionam a tempo…; ainda assim, António teve tempo de dizer onde estava Guadeloupe, e com isto chegamos à segunda cena: Era a meio da Rua da Calçada do Combro (sic), à esquerda de quem sobe, numa sede do MRPP (que, não o esqueçamos, aqui estavam feitos com os social-fascistas), e que ficava numa esquina ao lado de um barbeiro; ora Malko, querendo arrancar a jovem sem demora das garras do KGB e conhecer o segredo que ela tinha para contar, avançou para lá com destemor e pôs a cabeça no cepo, que é como quem diz que se sentou na cadeira crasseuse da barbearia… apenas para o sinistro Feytor-Pinto lhe encostar uma navalha ao pescoço, dar meia-volta à cadeira giratória e enfiá-lo nas masmorras da tcheka que funcionava ao lado! Há ainda uma terceira cena, que se passa no Altis e mete o sósia de um ex-Presidente da República mais um negro de físico avantajado, flagrados em pleno pecado nefando, que também é extraordinária mas que eu, à falta de um sistema de parental control no 5 Dias, não posso aqui contar.

A história – O plot é delirante: a luta de classes está ao rubro, os vermelhos querem tomar o poder e os seus amigos russos já sonham com a República Socialista Soviética de Portugal. Para acelerar a marcha da história, despacham para cá uma série de operacionais do KGB, chefiados pelo brutal Grifanov e onde pontificava a jovem Natacha, uma gata selvagem que S.A.S. se viu na obrigação de domesticar. A sua missão era tomar o poder, desacreditando os líderes que combatiam pela liberdade (a reputação de Mário Soares, nomeadamente, ficava reduzida a cacos), eliminando alguns outros (o que só a ajuda dos revolucionários românticos da LUAR, chefiados por uma das mais geniais personagens do livro, o grande Carlos Magalina, conseguiu impedir) e, finalmente, despachando num avião para Moçambique (destinado premonitoriamente a cair) todos aqueles que sobrassem, incluindo… Álvaro Cunhal!, « …qui n’était plus en odeur de sainteté auprès des soviétiques, qui lui reprochaient de faire du stalinisme trop virulent »Evidentemente, era não contar com Malko e a sua rede de contactos informais no seio do mulherio, sobretudo a elegante Guadaloupe Sanchez, que descobriu a tramóia e praticamente salvou a liberdade em Portugal.

O epílogo – Ganham os bons. Malko parte e deixa alguns corações destroçados em Lisboa – e um também em Moscovo. O livro seguinte da série chama-se Embargo, passa-se nos E.U.A., entre Houston, Washington e Boston, e é assim resumido na sua contra-capa: “Os países do Médio-Oriente produtores de petróleo decretaram um embargo petrolífero aos americanos, para prejudicar Israel. Malko, que andava a investigar as actividades do milionário saudita Nafud Jidda, descobre que este está ligado ao embargo, assim como um texano ligado ao petróleo. Malko realiza algumas acções perigosas, nomeadamente um salto em pára-quedas, neste livro onde estão também presentes outras figuras habituais da série, e que é digno de um James Bond”.

 

 

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 respostas a O melhor livro de sempre sobre o PREC

  1. ezer diz:

    Fosca-se!sem comentários!Ufa

  2. redhot diz:

    O 007 também andou por cá.
    No pior (melhor!) filme da série.
    Andou pelo Estoril, foi a touradas, casou-se, depois atravessou a ponte, no tempo em que a ponte ainda não tinha trânsito mas tinha outro nome, e acabou por ver a esposa ser morta na serra da Arrábida.

    Tinha ordem para matar mas não para derrubar Salazar.

    Bastante mais discreto que o Príncipe Malko.

  3. pirate68 diz:

    Um verdadeiro best seller !
    O Dan Brown que se cuide. Uma obra-prima da literatura kitch…

  4. Pingback: cinco dias » O melhor livro de sempre sobre o PREC (segunda oportunidade)

  5. BM diz:

    “O quinto império”
    Mal chegou, Clément compreendeu a razão de ser de Portugal, precisamente a de não ter nenhuma (39)
    … nós somos púnicos, parecemo-nos comos mercenários de Amílcar e todos esses matreiros do mediterrâneo. Nós somos girinos… (49)
    Em português, as palavras são um simples meio de simpatia, ou o seu contrário. As pessoas perdem assim horas em conversas inúteis, só com o fim de garantir a sua estima recíproca (95)
    Como bom português, sentia-se fascinado pelo desastre e caminhava para o abismo (118)
    Ela continua: «Não se pode dizer «amo-o» em português. A palavra amar é pretensiosa. Prefere-se dizer gostar sem que se possa dizer gostar de ti, este «gostar» que se aplica tanto ao pão como ao amor. Donde a nossa necessidade de torcer as frases em arabescos, o nosso sentido do compromisso (154)
    Em compensação, confiavam na sua polícia que enchia as suas fichas ao mesmo tempo que as colónias penitenciárias de Caxias e de Cabo Verde. Quando um Estado é desonesto, os cidadãos são desonestos (163)
    Um conquistador não é um promovido pela antiguidade e pelos concursos; Filipe Pétain não teve ânimo para ir a Argel em 1942, Kaúlza para mandar a barraca aos ares em 1973. O poder exige uma alma de Al Capone, sem rei nem lei (178)
    As revoluções, quem quer que sejam os seus autores, não mudaram nada. Conduzem aos mesmos abismos. A dificuldade é mudar o homem (192)
    Uma das particularidades portuguesas: o gosto da pequena polícia, a que mantém relações sentimentais como povo. A sua arte de bisbilhotar, de procurar por trás, de inventar razões e causas, a um tempo teima de funcionário e regressão à inteligência infantil. Ou bem que os portugueses não fazem nada, ou bem que vão até ao último pormenor e, chegados aí, largam tudo como de costume (196)
    Cada cinquenta anos, o país sonha ser a primeira sociedade liberal avançada do mundo. Cada cinquenta anos, o libertário volta à superfície. Procura-se então um banqueiro ou um professor de economia capaz de casar meio século de bordel com O Espírito das Leis (223)
    Os portugueses nunca descobriram nada, senão a Índia no século XVI.
    Sem endereços e todos com o mesmo nome, obedecendo a dois ou três pequenos princípios, entre os quais o de inventarem títulos… (302)
    Dominique de Roux (1977, Paris)

  6. Pingback: cinco dias » Amour et préjugé

Os comentários estão fechados.