Jorge Palinhos: A Conspiração

[E agora apresento o primeiro craque das segundas-feiras: Jorge Palinhos, que já foi do Cruzes Canhoto e do Blogue de Esquerda. Nunca conheci pessoalmente o Jorge, mas sou um fã de longa data. Sei que será o meu primeiro acerto como editor do 5dias, mas o mérito é todo dele.]

Uma parte significativa das pessoas que conheço acredita que o governo americano é responsável pelos atentados de 11 de Setembro de 2001.
Estas pessoas não são, note-se, anti-americanos destravados, leninistas ferozes ou maníacos da conspiração. São pessoas de ordinária normalidade, profissão regular, família burguesa e votantes de partidos centristas. Mas são também pessoas que dão crédito a teorias de que o Pentágono foi atingido por um míssil, de que as Torres Gémeas foram alvo de demolição sistemática, de que o Voo 93 foi abatido por um míssil, e que tudo, no fundo, não passou de uma elaborada e sangrenta desculpa para invadir o Iraque e o Afeganistão. E estas pessoas não estão sós na sua crença, visto que inquéritos recentes revelam que quase 40 % dos americanos acreditam que o seu próprio governo teve mão nos atentados.

Por modéstia própria, e alguma auto-estima, não costumo desconfiar que as pessoas que me rodeiam precisam de apoio psiquiátrico. Acredito até que todos os governos são suspeitos até prova em contrário: não são novos os Estados que enganam e sacrificam os seus concidadãos para desencadear guerras e invasões, e o enorme poder económico e militar de que dispõem justificam a desconfiança e fiscalização extremas.

Mas, apesar disso, olho para o 11 de Setembro e espanto-me: será possível que um governo destrua uma parte da sua sede militar e arrase um importante centro de negócios, no lugar do mundo com maior percentagem por metro quadrado de jornalistas, câmaras de vigilância e eleitores hostis ao governo, só para se ir meter em duas alhadas sem saída visível? E é possível recrutar, para tal operação, centenas de agentes de lealdade à prova de remorsos e inconfidências? E como se calam dezenas de milhar de especialistas capazes de suspeitar de algo? E como é que alguém poderia levar a bom termo uma operação de tanta audácia e inteligência e em seguida ter sucessivos desaires no Afeganistão e no Iraque? E, mais importante ainda, como continuar a discorrer com gosto sobre os índices de inteligência de George W. Bush se há a possibilidade de este ser o mais carismático génio operacional do mundo desde Amílcar Barca?

Para tirar dúvidas, nada como ver a mais reputada denúncia desta alegada conspiração: um documentário divulgado na Internet, montado por um trio de empenhados adolescentes, que se basearam em teorias e factos postos a correr anonimamente na internet.

A minha conclusão foi: é bom ver os jovens de hoje retomarem a sua leitura de Aristóteles! Porque a eficácia retórica do documentário é notável. Começa-se por apontar factos passados pouco abonatórios para o governo americano e indícios de que alguém teria lucrado com os atentados para pôr o espectador a levantar o sobrolho. Passa-se, em seguida, para o sumo da argumentação, apontando inconsistências, contradições e paradoxos da versão oficial de forma a deixar o receptor cheio de suspeitas. Entra-se, então, no acumular de pistas e pontas soltas, sem, contudo, se fornecer qualquer contexto ou sistematização.
Por fim aponta-se um culpado e sugerem-se possíveis motivos de culpa, nenhum deles aprofundado, e termina-se com os autores a dizerem-se perseguidos e ridicularizados pelas suas ideias e acenando patrioticamente a bandeira americana.

O veredicto? 16 em estrutura, 4 em conteúdo. Porque se é admirável o trabalho e empenho destes adolescentes, e parece haver pormenores genuinamente estranhos que mereciam investigação, a existência de líderes maquiavélicos e agentes impiedosos continua a parecer-me do domínio de Ian Fleming. É que, para os paradoxos e inconsistências da versão oficial, continuo a achar mais verosímil a explicação de que muitos fenómenos físicos continuam incompreensíveis para nós e que as instituições americanas está tão cheio de incompetentes, indolentes, débeis mentais e corruptos como todas as outras organizações do mundo.

Serei ingénuo? É uma possibilidade. Mas em toda esta alegada conspiração, o que mais me intriga é a quantidade e qualidade de pessoas que nela acreditam.

Não me refiro à visibilidade e impunidade que os divulgadores da dita conspiração parecem ter, mas à necessidade que tantas pessoas comuns parecem ter em acreditar nela. Falo do facto de que milhões de americanos parecem suspeitar que o seu governo legitimamente eleito as enganou e usou como um horroroso isco e nada fazerem quanto isso. Um político húngaro admitiu recentemente ter mentido para ser reeleito e tem manifestações e protestos quotidianos à porta. O governo americano é suspeito de ter sacrificado mais de 3000 dos seus cidadãos e… nada?

Isto leva-me a duas suspeitas. Uma, é a suspeita de que as pessoas preferem acreditar na omnipotência e perversidade do seu próprio governo a acreditar na fraqueza e impotência deste perante inimigos estrangeiros. A outra é a suspeita de que se as pessoas crêem que o seu governo eleito é totalitário e nada fazem contra isso é porque, talvez, no fundo, guardam o secreto desejo que este seja mesmo totalitário e omnipotente.

E isto é a conspiração mais assustadora de todas.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em convidado and tagged , , , , . Bookmark the permalink.

14 respostas a Jorge Palinhos: A Conspiração

  1. l.rodrigues diz:

    Bom artigo, lembra-me uma coisa que li em
    http://www.counterpunch.com/cockburn09092006.html

  2. ezer diz:

    ….e o documentario de Dylan Avery,é sómente treta por pôr a nu incrongruências da investigação?Não é verdade que em matéria de mandar os ‘seus’ pelos ares,já foi feito no episódio de Cuba?E os ‘relatórios’ acerca de catalizadores para levar a cabo engenharia social e’ levar a água ao seu moínho’?

  3. ezer diz:

    ..não acredito em bruxas,mas que as há,há!!!
    ‘Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém’…e,’desde que vi uma gibóia a andar de bicicleta,já acredito em tudo’.

  4. manel diz:

    ..não acredito em bruxas,mas que as há,há!!!
    ‘Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém’…e,’desde que vi uma gibóia a andar de bicicleta,já acredito em tudo’.

  5. manel diz:

    Ooops,desculpe-me

  6. corujo diz:

    Bem vindo de volta à Blogesfera!!!!
    Espero que continues a postar com força

  7. Todos nós preferiríamos acreditar que o 11 de Setembro foi perpetrado por monstros, e não por homens. Mas factos são factos, e nem toda a retórica do Mundo pode mudá-los.
    Para começar, não sei o que são “teorias da conspiração”. O que sei é que há muita gente que não está satisfeita com as conclusões oficiais, nem com o pouco empenhamento demonstrado em obter explicações sobre o que aconteceu.
    Segundo percebi, o sr. em causa refere-se ao “Loose change”, exibido pela RTP. Provavelmente não chegou a ver os créditos iniciais ou finais, nem se deu ao trabalho de verificar o nome do documentário. Reparem nesta passagem do texto: “O veredicto? 16 em estrutura, 4 em conteúdo. Porque se é admirável o trabalho e empenho destes adolescentes, e parece haver pormenores genuinamente estranhos que mereciam investigação, a existência de líderes maquiavélicos e agentes impiedosos continua a parecer-me do domínio de Ian Fleming. É que, para os paradoxos e inconsistências da versão oficial, continuo a achar mais verosímil a explicação de que muitos fenómenos físicos continuam incompreensíveis para nós e que as instituições americanas está tão cheio de incompetentes, indolentes, débeis mentais e corruptos como todas as outras organizações do mundo.”.
    Resumindo, é assim: o sr. Jorge Palinhos acha que as perguntas levantadas pelo “Loose change” são fantasiosas. Pronto. Está arrumado. O sr. Palinhos é que sabe. Os outros todos, os que fizeram o filme, os que criam websites, os que escrevem blogs, não sabem. Portanto, sem abordar uma única questão em concreto, sem mostrar um único ponto em que discorda, sem citar uma única fonte que verifique a versão oficial sobre um único dado colocado pelo filme, o sr. Palinhos discorda. Isto chega?
    Para mim não. Vejamos um único ponto da “teoria da conspiração”: o Pentágono não foi atingido por um Boeing 747, como mostra este website (http://www.apfn.net/MESSAGEBOARD/06-14-04/discussion.cgi.51.html) e dezenas de outros documentos. Não foi, ponto final parágrafo. Os defensores da verdade oficial baseiam-se em quê? Na palavra de Bush? Nas convicções de Pacheco Pereira? Em quê?
    Assim, e parafraseando este moço, 16 em estrutura, 0 em conteúdo. Ao menos os “adolescentes” que fizeram o “Loose change” fazem perguntas e mostram documentos. Querem saber mais. E eu também quero.
    P.S. Ainda mais hilariante é referir o governo Bush como “legitimamente eleito”. Enfim…

  8. Pingback: À Vontade do Freguês :: Bom senso :: September :: 2006

  9. É impressionante como o Alexandre Mano se consegue transformar no seu próprio alter ego:
    “o sr. Jorge Palinhos acha que as perguntas levantadas pelo “Loose change” são fantasiosas. Pronto. Está arrumado. O sr. Palinhos é que sabe. Os outros todos, os que fizeram o filme, os que criam websites, os que escrevem blogs, não sabem. Portanto, sem abordar uma única questão em concreto, sem mostrar um único ponto em que discorda, sem citar uma única fonte que verifique a versão oficial sobre um único dado colocado pelo filme, o sr. Palinhos discorda. Isto chega?”
    (refira-se que Palinhos cita, só assim, 5 questões pelas quais não compreende as teorias da conspiração, o Alexandre nã quer saber. Mas mais graça tem quando, mais abaixo diz : )
    “Para mim não. Vejamos um único ponto da “teoria da conspiração”: o Pentágono não foi atingido por um Boeing 747, como mostra este website (http://www.apfn.net/MESSAGEBOARD/06-14-04/discussion.cgi.51.html) e dezenas de outros documentos. Não foi, ponto final parágrafo.”
    (Não foi, ponto final paragrafo, repito. Ó Alexandre, o Alexandre diz, a gente assina… esse site manhoso diz, nós concordamos, ainda que com os neurónios desligados… Não se pode é dpeois, ir ler sites como este, que se corre o perigo de ter de pensar pela própria cabeça http://www.loosechangeguide.com/lcg2.html )

  10. Caro Michael,
    Se a minha opinião não ficou clara à primeira, obviamente foi por minha culpa. Não vou aqui discutir se o site que eu aponto (e sabe que poderia apontar dezenas de outros) é mais ou menos manhoso que aquele que você indica. Primeiro porque realmente não tenho conhecimentos técnicos para os avaliar; depois porque é melhor que cada os leia e decida. Mas dou-lhe todo o mérito por, ao contrário do sr. Palinhos, ter apontado uma fonte que tente explicar os acontecimentos de 11 de setembro de 2001.
    De resto, não vejo qualquer contradição no que escrevi. O post original mostra 5 razões pelas quais o Jorge Palinhos não acredita nas teorias da conspiração, e não apresenta qualquer argumento ou fonte que valide a sua opinião. Se ele acredita ou não, se eu acredito ou não, se você acredita ou não, são todos factores irrelevantes quando comparados com os factos. E estes continuam por esclarecer.
    Por último, se ninguém é dono da verdade, também é certo que tenho convicção no que afirmo. Cada um que julgue se os “neurónios desligados” são mais necessários para ler aquilo que escrevo ou o post original.

  11. parca diz:

    Bom regresso à blogosfera Jorge! E um artigo cheio de bom senso. Ou o Bush é um atrasado metal ou é um génio, as duas ao mesmo tempo é complicado.

  12. corujo diz:

    parca: Os cordelinhos das marionetas…

  13. Franzini diz:

    Sem qq duvida que há um conjunto de denuncias que só podem dar que pensar,já chamar Bush de burro e em simultaneo acusa-lo(como alguns) de fazer parte desta suposta conpiração parece-me contraditório,quiça algo persuscutório.Escusado também era a RTP2 passar um documentario sobre o assunto 4(?) vezes num espaço de cerca de 10 dias.Eu a isto chamo propaganda,outros porventura “serviço publico”…

Os comentários estão fechados.