Um Sol frio

Perdoe-se a explosiva incoerência, mas a gente afeiçoa-se-lhe, às incoerências, e depois é o diabo. Haverá alguma coisa por dizer acerca desse tristonho Sol que nasce apenas uma vez por semana para tentar fazer sombra a um Expresso que vai andando parado? Afinal, a «criatividade que é privilégio só de alguns» em que país de maravilha os privilégios serão de todos?) – perdeu-se algures na fascinante aventura de criar um jornal novo que afinal é velho. A montanha pariu um rato, apesar de muitas páginas e secções e cronistas. Não cabe aqui nem na minha paciência analisar raio por raio o modelo que assenta no auto-elogio, nas reportagens umbiguistas que prometem até folhetim, nos cronistas de sempre e da mesma maneira, na obsessão com uma concorrência que antes de ser já o era. Vou alinhavar duas questões para mais tarde recordar e nunca responder.
Para que servirá um jornal?, eis a primeira. A ideia que vai pública e instalada, até a propósito do desaparecimento do Independente ou da moribundice do Semanário, é que dá jeito apenas para servir um projecto político, os projectos e as caras de um político, uma determinada opinião económica ou quando muito fatia social, o conjunto mascarado de nebuloso desígnio de progresso. Mas o que vale, de uma maneira ou de outra, é a política e uma ideia de política. Não apenas teima em aparecer como parece desaparecer a ideia política de jornalismo enquanto lugar de despoder ou, quando muito, de contra-poder. Há-de haver aqui pitada de romantismo, quando sabemos que os jornais foram inventados para vender sabão e facultar horários dos navios, mas aqui e ali, ainda no século XX, aconteceram projectos onde a justificação maior era a vontade de saber tudo e todas as maneiras, incluindo segredos de cada um dos poderes, podres ou nem por isso. Não esperava isso, nem mais ou menos, do Sol Millenium, mas fazer um jornal só para concorrer com outro ou vender uma qualquer banha a cobra política parece-me exagero morno.
Para que servirá tanta política na informação?, eis a segunda. O arquitecto e senhor do Sol ofereceu abundante doutrina acerca da espantosa novidade que se anunciava. O país ansiava, as mulheres e os jovens leriam, a crise de leitura e leitora acabaria logo ali, num sábado ou dois. Pois que trouxe de novo o modelito, vagamente inspirado em tablóides britânicos mas sem lhe importar nem garra, nem grafismo, nem virtudes ou os alegres defeitos? Por enquanto, nada. Daí o imenso peso que a “informação” política e a opinião vedetizada ganha nas suas páginas, espelho dos outros, mais correio ou diário, mais 24 ou notícias. O quotidiano, as abordagens radicais, enfim, a banal teologia da resposta à crise dos jornais (à qual faltou apenas a inetvitável versão web) arruma-se com visitas ao jet-set e colunas de jardinagem. Amanhã há mais, mas cai fora destes (cinco) dias.
A incoerência? Não justificava tanta atenção. É mais do mesmo país do vamos andando.

JOÃO PAULO COTRIM

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a Um Sol frio

  1. Saloio diz:

    Senhor JPC: concordo consigo.

    E lembro-me de que quando o Independente apareceu era, pelo menos em relação aos jornais que existiam, muito diferente. Os temas tinham a ver com a malta dos 30/40 anos, as reportagens eram interessantes e as investigações foram uma novidade que deixou muitos espantados. Lembro-me perfeitamente de aguardármos por sexta-feira de manhã, para sabermos quem é que tinha sido “agarrado” naquela semana.

    Nessa altura, já o Expresso era para velhos e para estabelecidos. Portanto, foi o conteúdo novo e interessante, que atraiu a malta.

    No Sol, nada vi de anormal, ou sequer de diferente do próprio Expresso, do Semanário ou até do Público. Tratando-se do número de lançamento, pensei que traria algo de especial (uma reportagem, uma entrevista, um caso desconhecido, qualquer coisa nova…). Não trazia.

    Enfim, esta semana também vou voltar a comprar, mas para a outra semana não sei…

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