O guerilheiro Luther Blisset

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Luther Blisset desapareceu com a passagem do milénio: ao contrário do vírus informático ele “existiu” mesmo. Rezam as crónicas que se transformou em Wu Ming , depois de um suicídio ritual (seppuku). No entanto, a pergunta continua sem resposta: quem era Luther Blisset? Ao princípio era a bola e Luther Blisset era um futebolista negro do AC Milan. Em meados dos anos 90, activistas autonomistas italianos usaram o nome de Luther Blisset e forjaram um pseudónimo colectivo (usado por activistas de vários continentes) para realizar determinadas acções no quadro da guerrilha mediática.
Este estranho colectivo produziu um conjunto de acções que enganou os media institucionais, criando uma série de eventos (factoides) que os media passaram a atribuir a um misterioso Luther Blisset.
“Na Itália, no período 1994-1999, o chamado Luther Blissett Project (network mais organizado no seio da comunidade aberta que utiliza o pseudónimo) adquire notoriedade torna-se uma lenda, uma espécie de herói popular, um Robin Hood da era da informação que organiza enganos, passa notícias falsas aos media, coordena heterodoxas campanhas de solidariedade a vítimas da repressão, etc. O romance Q é redigido em 1996-98 por quatro membros do grupo bolonhês do LBP (Luther Blissett Project), sendo publicado pela editora Einaudi, em Março de 1999. Nos anos seguintes, é traduzido para o inglês, espanhol, alemão, holandês, francês, português, dinamarquês e grego”, como se pode ler na Wikipedia, versão portuguesa.
Mas vamos então por partes: guerrilha mediática? Acções? E claro, Luther Blisset?
A guerrilha mediática é só um momento da comunicação guerrilha, que por sua vez é uma parte da mais extensa guerrilha cultural para a conquista da hegemonia, é, pelo menos, o que garante o livro “Guerrilha Psíquica” de Luther Blisset.
Esta guerrilha de “novo tipo” não é uma alternativa. Esta praxis baseia-se no pressuposto que é possível agir dentro do sistema mediático subvertendo as suas intenções e aproveitando as suas taras sensacionalistas. A “guerrilha mediática” não pretende revelar a “verdade verdadeira” que os media oficiais nos escondem. A prática eficaz destas acções subversivas exige o abandono da teoria da conspiração e do big brother. Toda a gente sabe que os media oficiais mentem! Toda o mundo conhece as razões objectivas e subjectivas que produzem esta mentira. Mais do que denunciar a mentira, a guerrilha mediática pretende tornar a mentira ridícula. Abandonar toda a recriminação e adoptar uma prática lúdica que mande um retrovírus para o sistema.
A guerrilha pretende demonstrar, à saciedade e à sociedade, as taras e os traumas dos medias institucionais, o guerrilheiro coloca-se na posição do judoca que usa a força do adversário para o projectar.
Aqui ficam alguns dos relatos das acções:
No Verão de 1994, os jornais de Bolonha começam a ser inundados por muitas cartas de leitores chocados por encontrarem nas ruas entranhas de animais.
Várias pessoas testemunham que um jovem entra em convulsões e retira das calças um intestino (de carneiro) em sangue. Os acontecimentos sucedem-se e os jornais começam a falar do estranho fenómeno do “horrorismo”, psicólogos, sociólogos, comentadores habituais são chamados aos media, e escrevem e peroroam sobre o assunto. Em carta mandada aos jornais um tal de Luther Blisset denuncia: o “horrorismo” nunca existiu, tudo não passou de um pequeno conjunto de acções feitas pelo próprio.

Em Janeiro de 1995, um conhecido programa da TV italiana, “Quem o Viu?” (sobre pessoas desaparecidas), recebe uma denúncia sobre o desaparecimento em Itália do célebre artista Kipper. O caso é noticiado, e a televisão manda uma equipa a Bolonha e a Inglaterra para falar com os amigos do desaparecido. Nas vésperas do programa ir para o ar, uma denúncia anónima (o próprio Luther Blisset?) confessa a fraude.
Na Primavera de 2006, é publicado, na integra, nas páginas de um dos principais jornais de Bolonha uma carta de “uma prostituta infectada com o vírus da Sida” que confessa furar os preservativos para infectar os clientes, como forma de vingança. O escândalo é enorme. Novamente, os comentadores da moda são convidados a “esclarecer” o assunto. Os artigos são ridicularizados pelo Reppublica que descobre estar-se perante a uma acção de … Luther Blisset. O mesmo jornal que distribui, com pompa e circunstância, um livro de Luther Blisset, que se vem a saber não é de Luther Blisset. Afinal os textos tinham sido dados ao jornalista de direita Giuseppe Gena, não eram mais do que uma colecção de testemunhos de bêbados, cozinhados, editados em tom esotérico, dados por activistas para ridicularizar a obra.
Entre 96 e 97, a cidade de Viterbo entra em pânico. Parece que os satanistas tomaram a cidade para fazer misteriosas missas negras, à televisão chegam imagens de cerimónias diabólicas, o bispo de Viterbo toma posição preocupada, nas ruas surgem frases diabólicas e cartazes de ligas de moral. Finalmente, é enviada a filmagem completa da missa negra, em que os autores denunciam a sua própria fraude.
Em 1999, Luther Blisset publica o romance Q (Editado em Portugal), a 6 de Março de 1999, os quatro autores do Q, o Caçador de Hereges, saem a céu aberto em 6 de Março, numa entrevista ao diário Repubblica, os quatro garantem: “os nossos nomes têm importância mínima e a das nossas histórias individuais é ínfima. Somos a equipa que escreveu Q, mas não chegamos a constituir o 0,04% do Luther Blissett Project”. O livro desperta interesse também pelo facto de ter sido publicado numa espécie de fórmula copyleft (permite ser usado e alterado, fazendo referência à fonte e disponibilizando o resultado para posteriores e livres alterações).
Em Dezembro de 1999, termina o Plano Quinquenal do Luther Blissett Project. Todos os veteranos (os que utilizam o nome desde 1994) perpetram um suicídio simbólico. O encerramento do LBP não implica, de forma alguma, o fim do pseudónimo, que continuará a ser adoptado por muitas pessoas em vários países. Em Janeiro de 2000, uma quinta pessoa alia-se aos autores do Q e nasce o grupo de narradores Wu Ming (“anónimo” em mandarim). O espectáculo tem de continuar!

Escrito para o Blocomotiva

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a O guerilheiro Luther Blisset

  1. manel diz:

    Por falar em teoria da conspiração,o que têem a dizer os ‘alter’ sobre o doc. de Dylan Avery do ‘Loose Change’?Gostaria de saber!Gostaria de saber também, a unanimidade à direita(não espanta!) e à esquerda sobre o acincalhamento de Hugo Chavez(é certo que tem uma especificidade de comunicação,mas creio que é devido à cultura sul-americana muito expansiva-ao contrário da norte americana-expansionista).Blair é mais ‘blasé’ e mais ‘pacifico’ que HC,só que eleito por 20% do eleitorado inglês ao passo que Hugo parece que inté invadiu o Iraque,atacou os Palestinos e,bombardeou o Líbano.De facto,a propaganda é poderossíssima e a democracia plena ainda não passou dos Patrícios…

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