A banda sonora da raiva

Eles, os maus, derrubaram as torres, mas os destroços continuam a cair-nos em cima, tantos e tão poucos anos depois. Chegam sob forma de guerras, novas ou prolongadas, vindas de longe mas que se preparam para ferir o futuro. Instalaram-se como grãos de areia nas rodas dentadas da economia-mundo, do mapa esticado à força na globalização. São refugiados e torturas, são abstracções e dores concretas. É mais, bastante mais do se exprime, por pura incapacidade. Há que tomar o tempo, o nosso tempo. Amparanoia anda para aí a cantá-lo no energético La Vida Te Da, no tema Jungle 3 La Realidad, por exemplo. Roubemos tempo, que o pessimismo está à vista mas não precisa corroer a estrutura dos dias. Para onde deve saltar o herói do videojogo para se salvar, a ele, apenas a ele e não ao mundo? Ou deve partir já para a batalha com os místicos? The Flaming Lips estão a arder At War With The Mystics e convocaram-nos para murmurar a plenos pulmões The Yeah Yeah Yeah Song (With All Your Power). Nem por nada nos livramos do Império, está no miolo do pão fermentado, no lume da faca iluminada. Mas conservamos um pleno poder: rir, a plenos pulmões. Dá licença? Pegue-se no hino da nação dos bravos e na terra das liberdades e oiça-se retocado em brilhante versão minimal repetitiva pelos inacreditáveis Sparks. Chama-se (Baby, Baby) Can I Invade You Country e resguarda-se como jóia no mais recente Hello Young Lovers. Amantes e jovens, descobrem-se ainda para além de processos judiciais por amores proibidos. Por onde andam as forças, nem que sejam as do Mal? Paul Simon regressou com uma Surprise orquestrada pelo cinematográfico Brian Eno. Anda perdido de amor pelas suas crianças, claro, mas tem tempo para nos dar as suas Wartime Prayers. O negrume íntimo e pessoal de Dylan também podia ser para aqui chamado, mas não tenho tempo. Vou deixar-me invadir pela espantosa homenagem a Marvin Gaye que Dirty Dozen Brass Band fez a propósito do furação Katrina. Brilhante orquestração de pedidos de ajuda. No coração do Império há pobres pretos que perguntam What’s Going On e desatam no nó em toadas esmagadoras. Quéquessepassa? Há prazer por entre os escombros de Pompeia.

JOÃO PAULO COTRIM

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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