Turista ocidental

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Gostava de contar coisas sobre a China, onde passei o mês de Agosto. Mas por onde começar? A missão é homérica. A primeira expressão que me saiu quando tentei falar aos meus amigos foi dizer que o mês foi «trabalhoso». Um mês de férias, mas trabalhoso. Na China – e clarifico, porque tudo o que eu disser sobre a China é Xangai, Beijing e mais duas outras cidadezinhas (uns povoados mesmo) de sete ou oito milhões de habitantes -, na China não senti muito o conforto do turista. Não é que eu não ande por lugares confortáveis, e de maneira confortável, porque me sacrifico pouco e tenho orçamento suficiente para evitar privações. Mas, tirando uma coisa ou outra – o primeiro hotel onde ficámos, de ambiente bastante colonial -, tudo na China é descoberta, tentar compreender, tentar perceber. Orientar-se a gente consegue, no sentido físico, pelo menos, de não andar perdido, de chegar aos lugares onde pretende, mesmo sem falar uma língua minimamente comum com eles. Mas todo o assunto é orientação no sentido em que passo o dia a perguntar-me: «o que é isto?», «o que é que estes gajos querem?», «que é que andam a fazer?», no meio do barulho, da poluição, da construção, do trânsito, do ritmo. Também da arquitectura, porque é preciso andar de olhos bem abertos e pescoço apontado para cima se se quer ver alguma coisa enquanto turista. Em Xangai, um calor de 35 graus com 90% de humidade, sempre esse bafo húmido, dia e noite, quando se sai dos hotéis, ou das lojas, ou dos restaurantes. (Não vou dizer dos cafés porque, infelizmente, há pouca coisa a que se possa chamar café.) No final do dia voltamos ao hotel, ligamos a tv e olhamos para o mapa da meteorologia que mostra o tempo que fará amanhã do outro lado do mundo. Tirando que, agora, o outro lado do mundo é o nosso lado do mundo; e isso, de alguma maneira, resume bem a experiência, até no aspecto que ela tem de mais encantador: mesmo ao fim de quatro semanas, continuamos a sentir-nos do outro lado do mundo, nunca esquecemos a distância. A supresa, a curiosidade e o incómodo.
Esta distância não é um efeito meramente geográfico, evidentemente. É uma coisa da língua, e é uma coisa dessa matéria mal definida e perigosa a que se chama «cultura». Isto não significa que o diálogo com os nativos seja impossível; não é e, pelo contrário, sobretudo em Beijing encontra-se muita gente com vontade de praticar o inglês e conversar com turistas. Mas a barreira, a ampla barreira, nunca se ultrapassa. Posso estar a conversar com uma rapariga esperta, de vinte anos, professora de inglês, completamente virada para a integração da China no mundo a que chamamos «moderno», que veste as roupas que vê na MTV, e no meio da explicação dela sobre como interpreta a China e as mudanças que estão a acontecer, ela explica, com a mesma naturalidade, que tudo é no fundo uma continuação do que o Karl Marx já tinha pensado e proposto, que o Deng Xiao Ping fez apenas umas actualizações, sempre guiado pelo pensamento de Marx. E damo-nos conta de uma barreira, de um horizonte inultrapassável, de termos do discurso que não são compatíveis. Um sorriso irónico, porque a conversa por aí não é mais possível.
Eu gostei do passeio e gostei sobretudo de Beijing. Desejo regressar lá, uns quatro, cinco dias, para reconhecimento, voltar aos lugares onde estive, a dois ou três onde não estive, ver como páram as coisas, comprar mais umas roupas de contrafacção a preços incríveis (para o turista com algum dinheiro, e querendo comprar, a China é o paraíso). É engraçado também isso: simpatizei com Beijing na primeira meia-hora, sem saber explicar porquê, e constato que o fenómeno é muito comum nas minhas viagens. A impressão da cidade forma-se logo no início. Gostei de Beijing com aquelas avenidas descomunais, larguíssimas, estalinistas: se se colocarem arranha-céus de cada lado da rua, vai parecer normal, tão normal como qualquer cidade dos Estados Unidos. É o que parece. De Xangai não gostei tanto, embora tenha coisas interessantes. Teria meia-dúzia de bares para recomendar, dos melhores que vi alguma vez na vida. Mas aí só posso pensar em voltar porque, imagino, em dez anos, ou vinte anos, essa cidade estará do avesso, como toda a China. A impressão da China (Xangai, Beijing, onde eu estive) é essa mesmo: que tudo está a ser virado do avesso. Que tudo é capitalismo, que tudo é fazer dinheiro, que tudo é enriquecer. Nada – nada que ver com a Rússia que eu vi no ano passado, São Petersburgo e aquelas adjacências pós-imperiais (Estónia, Letónia, em certa medida até Helsínquia).
E não há a menor chance de alguma vez sentir aquela coisa de ocidental, de pessoa que vem do mundo desenvolvido e tem curiosidade de saber como esses atrasados se estão a aproximar de nós. Há essa ilusão optimista de que o progresso é uma linha e de que nós estamos uns passos mais à frente nessa linha; essa ilusão, lá, nunca foi possível manter. Eles não estão a aproximar-se de nós, nós europeus, ou nós ocidentais. Eles estão lá, construindo muito, sujando muito, tentando muito enriquecer. Acho que eles não querem ser como «a América». Acho que eles querem simplesmente ser ricos e muito grandes. Pode ser ilusão óptica de turista que passeou por três sítios e acha que já viu tudo, que construiu um orientalismo à medida; mas, se eu tivesse de dizer, acharia que eles querem ser a «nova América», a próxima «América», mais do que «como a América». «Os navios chineses tomaram Londres numa manhã quente do Natal de 2035», como especulava o brasileiro que viajava comigo.

O comunismo, a democracia? Da democracia não sei muita coisa. Não sei se há muitos chineses, em Xangai e Beijing, que estejam a pensar nisso. O «comunismo» da China é mais científico do que o Marx e o Engels, em dias de sonhos húmidos, alguma vez pudessem ter imaginado: entre os nove membros do politburo do Partido Comunista da China, nove são engenheiros. Do comunismo aproveitou-se o que funcionava – um partido, mandando em nome de um projecto «nacional» – e o resto foi para o lixo. Mao está em toda a parte – não em estátuas, mas em bugigangas, matérias comerciáveis, t-shirts, porta-chaves, estatuetas, cartazes, relógios: um Che Guevara daquele hemisfério. E, embora o grande retrato dele continue a ornamentar a entrada da Cidade Proibida, como pai fundador da República Popular, da «nova» China, não há maneira de não achar que a omnipresença do Mao em objectos de consumo de massas é uma ironia maliciosamente calculada. Até para Mao o Partido tem uma fórmula científica: 70% do que fez foi correcto, 30% errado. Do verdadeiro pai da nova China, Deng Xiao Ping, nem um milésimo de representação em figurinhas.

UMA NOTINHA SÓ para dizer que agradeço ao Nuno Ramos de Almeida, que foi quem me convidou para fazer parte do 5 dias, e quem teve mais trabalho, e mais preocupações, e mais chatices, com isto até à data. O lado colectivo deste site reside na partilha da página entre os cinco. De resto, não tenho declarações de princípios, carta de intenções, essas coisas. Acho que isso é mais adequado para projectos políticos, como o semanário Sol. Aqui, cada um, cada dia, tentará ver o que se pode fazer com este meio, com a internet, com os recursos, com os links. Que seja útil.

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Xangai, no meio da rua. As fotos são deste americano, tirando a que está antes do texto, que é deste site aqui.

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Xangai: vê-se o rio Huangpu e a área de Pudong, que em 1990 simplesmente não existia. Às vezes, faz lembrar Hong Kong, tirando que a arquitectura de Hong Kong é muito melhor, e a própria geografia concentrada e montanhosa do lugar torna HK muito mais interessante.

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Aquela Pearl Tower é disneylândia pura.

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Aqui, ao fundo, temos a casa dos Jetsons (é o hotel Radisson).

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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