Aqui d’el-rei!

Autor já de uma inestimável biografia do nosso primeiro rei, e perdidas que devem ser agora as suas ambições presidenciais, o Prof. Freitas do Amaral tem vindo a dedicar-se com recobrado vigor à causa da monarquia; o seu último gesto em favor dos Braganças, contudo, que protagonizou ainda enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros e antes que o “cansaço” o tivesse levado de vencida, aproxima-se mais do género da comédia de costumes do que da biografia histórica – género que, recorde-se, já havia praticado antes com uma célebre peça ao jeito vicentino, enigmaticamente intitulada “O Reitor”.

Pois foi na sua qualidade de responsável pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (famoso coio de monárquicos e outras minorias extravagantes) que o Prof. Freitas do Amaral quis estabelecer, urbi et orbi, e de uma vez por todas, a primazia do Duque de Bragança sobre os demais pretendentes ao trono de D. Afonso Henriques, para tanto tendo solicitado ao Departamento de Assuntos Jurídicos (DAJ) do MNE um parecer que esclarecesse esta ingente questão que a todos muito preocupa.

A pretensão do ilustre administrativista – de que a República estabeleça quem deve suceder numa coroa que não existe e que ela própria, por definição, não reconhece nem pode reconhecer, já de si é divertida; mas o tratamento zeloso que os serviços do MNE lhe concederam ultrapassa tudo quanto seria expectável. A fazer fé numa edição recente do “Correio da Manhã”, o DAJ fundamenta o reconhecimento de D.Duarte Pio como legítimo herdeiro da Casa Real Portuguesa na “tradição do povo português” (!), nas “regras consuetudinárias da sucessão dinástica” (!!) e pelo “reconhecimento tácito das restantes casas reais… com as quais a legítima Casa de Bragança partilha laços de consanguinidade” (!!!), acrescentando que os Duques de Bragança “são várias vezes enviados a representar o Povo Português [sic] em eventos de natureza cultural, humanitária ou religiosa no estrangeiro, altura em que lhes é conferido o passaporte diplomático”…

Um tão suculento texto mereceria decerto uma exegese cuidada – que espíritos mais argutos não deixarão de fazer. Mas a mim, o que mais me preocupa é a reacção dos outros pretendentes, imprudentemente apelidados pelo MNE de usurpadores. Como irão eles reagir? Levarão eles a mão à espada? O “Povo Português” que se cuide – que nesta hora de aflição D.Diogo já cá não está para nos proteger!

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

3 respostas a Aqui d’el-rei!

  1. jorge diz:

    Parabéns ao autor do texto.

    Escreve de fato muito bem!

  2. Se pensam que a história do Duarte é má então vejam isto e divulguem http://www.duarteotretas.blogspot.com/

  3. Não… a história e as vigarices do Duarte Pio e dos seus antepassados estão aqui http://www.reifazdeconta.com e é muito pior do que se imagina, mas para além dele todos esses rapazes da politica que lhe apararam o jogo ao longo do tempo também são culpados perante o povo português

Os comentários estão fechados.