Intelectuais e media #3

[resposta a um inquérito DN/6a]

A mediatização tornou os intelectuais mais dependentes das massas do que das elites?

Em Portugal dá-se uma inversão curiosa: temos uma elite sem grandes realizações que necessita, para se sentir elite, de rebaixar constantemente as massas. Isto vale tanto para a velha elite que se aguentava com a ditadura como para aquela a quem o estado caiu no colo com a democracia. A nossa elite não tem grande mérito e no fundo sabe-o: basta olhar para aquela necessidade um pouco histriónica de se escandalizar com as ignorâncias dos jovens, a rusticidade do povo, os hábitos da classe média — o écran de plasma e o cartão de crédito e o futebol. Os nossos intelectuais não dependem das massas porque não pensam que as massas sejam o verdadeiro alvo do seu desempenho nos media. Pelo contrário: o público-alvo de que dependem é precisamente essas elites, muitíssimo inseguras com a contemporaneidade, que precisam de ser contantemente mimadas, consoladas e convencidas de que continuam a contar para alguma coisa. Noutros países, a resposta varia muito com o contexto e depende de cada história social. Um factor essencial é o do tamanho e da abertura da esfera pública. Pessoalmente, gosto da concepção do Padre António Vieira, “quem fala para o baixo também o entende o alto”. Quer dizer: o intelectual deve depender apenas de si e falar para toda a gente.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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