Intelectuais e media #3

[resposta a um inquérito DN/6a]

A mediatização tornou os intelectuais mais dependentes das massas do que das elites?

Em Portugal dá-se uma inversão curiosa: temos uma elite sem grandes realizações que necessita, para se sentir elite, de rebaixar constantemente as massas. Isto vale tanto para a velha elite que se aguentava com a ditadura como para aquela a quem o estado caiu no colo com a democracia. A nossa elite não tem grande mérito e no fundo sabe-o: basta olhar para aquela necessidade um pouco histriónica de se escandalizar com as ignorâncias dos jovens, a rusticidade do povo, os hábitos da classe média — o écran de plasma e o cartão de crédito e o futebol. Os nossos intelectuais não dependem das massas porque não pensam que as massas sejam o verdadeiro alvo do seu desempenho nos media. Pelo contrário: o público-alvo de que dependem é precisamente essas elites, muitíssimo inseguras com a contemporaneidade, que precisam de ser contantemente mimadas, consoladas e convencidas de que continuam a contar para alguma coisa. Noutros países, a resposta varia muito com o contexto e depende de cada história social. Um factor essencial é o do tamanho e da abertura da esfera pública. Pessoalmente, gosto da concepção do Padre António Vieira, “quem fala para o baixo também o entende o alto”. Quer dizer: o intelectual deve depender apenas de si e falar para toda a gente.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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Uma resposta a Intelectuais e media #3

  1. carlos diz:

    Como se diz para aí num certo blog “gostaria de ter escrito isto”. Assenta que nem uma luva num conjunto de figurões que têm uma necessidade essencialmente mercantil de se manter à tona no nosso sistema mediático – Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Maria Filomena Mónica … para só referir alguns nomes mais sonantes. Têm cada vez menos que dizer, mas precisam falar e ser falados para manter o seu nicho de mercado. São os “queixinhas” que identifica e que desmistifica nos seus textos “Menos ais, menos ais, menos ais” e “Esforço, dedicação, devoção e glória” (Esplendor da Ninharia in “Pobre e Mal Agradecido” – um obrigado ao meu filho João que me ofereceu o livro – dá prazer ler textos escritos pela inteligência). Apesar de tudo, alguma desta elite tem obra, só isso pode justificar alguma compreensão pela acentuação do seu processo de decadência. Esta, no entanto, já estava inscrita nos astros, como dizia um nosso ex-primeiro ministro, uma vez que uma boa parte desta gente se assume como elite por privilégio de nascimento ou de origem de classe. A decadência, um qualquer dia, acaba por chegar a todos, mas se a lucidez se mantiver, essa decadência poderá ser muito mais elegante.

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