A notícia da ruptura, em termos de nacionalidade, de Maria João Pires com Portugal (e eu coloco-me incondicionalmente do lado da pianista), foi, creio, a notícia mais comentada no “Público” online desde ontem com setecentos e dezoito comentários (718!!), muitos deles, a maioria (não tive para os ler todos, evidentemente), a esmagadora maioria, desfavoráveis à pianista. E porquê?
É simples: porque Portugal deve ser o único país da Europa (sei lá se é da União Europeia, da zona Euro, ou lá o que é), o único ou dos únicos, onde um artista é automaticamente visto como chulo, vigarista, sobrevivendo das esmolas do Estado; devemos ser o único país que cunhou mesmo a expressão “subsidiodependente”, e muitos usam-na alegremente. Somos pobres e burros com prazer.
Ora num dos comentários do “Público” li mesmo que Maria João Pires estava habituada a viver do Estado, e agora isso acabou-se (deve ser mais uma famosa “reforma” socratista). Acabemos pois com esta peculiaridade “portuguesa”: oh inclassificáveis comentadores saibam que Maria João Pires tem, desde 1989, um contrato exclusivo com a Deutsche Grammophon [página da artista], o mais importante catálogo da clássica – desde 1989, faz este aninho de 2009, portanto, vinte anos. Certo?
Esta polémica é inútil, porque, em Portugal ou noutro sítio qualquer, o número de “chulos” não há-de parar. Habituem-se.
Aqui, no Mosteiro dos Jerónimos, com Boulez e a Filarmónica de Berlim. Mozart, claro, o nº 20 (KV 466), andamentos segundo e último (Romance e Allegro assai).
Enquanto os patéticos jugulentos se vão divertindo com homonímias (acho que há por lá uma pessoa com nome parecido), os assuntos sérios vão desfilando à nossa frente. Sintomaticamente:
Recibos Verdes foi ontem o tema do ‘Consultório’, da TVI24. Myriam Zaluar, dos Precários Inflexíveis, foi a convidada.
Recomendo que vejam, e espero que este tipo de programas sirva para cada vez mais pessoas perceberem a barbaridade que são os recibos verdes, além de todas as implicações éticas e económicas que esse sistema traz.
Hoje haverá mais um acto eleitoral no Benfica. Os sócios e ferrenhos adeptos (nos quais me incluo) apenas pedem que ganhe alguém que não estrague muito mais. De resto, subscrevo o essencial deste texto do Ricardo Araújo Pereira.
Pinho foi demitido pelos motivos errados. O que interessa um gesto ordinário perante uma faena de políticas desastrosas? Pinho foi o ministro que declarou que Portugal não seria afectado pela crise ou que Portugal era um excelente país para os empresários chineses investirem pois era dos que tinha salários mais baixos na Europa. Sempre que Pinho dizia que uma empresa estava bem, ela falia no dia a seguir. Mas Pinho, como representante do BES no governo, distribuiu dinheiro. Fez uma política de cheque-na-mão, a todos os amigos do governo e amigos de amigos do governo. Um péssimo ministro no governo dos interesses.
Diz-se agora que o ministro era inábil e que não era “político”, porque político parece ser todo o ser que aldraba as suas emoções e ideias.
A risível máquina de guerra russa que não intimida o nosso homem com a terefa de mudar o mundo.
Eu estou fascinado com o Partido Socialista, por duas razões: primeiro, porque ataca a crise nacional e internacional ao mesmo tempo, ou seja, tenta mudar Portugal e o mundo – repito, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo caramba!
A crise em que estamos atolados é, como todas as pessoas de bom senso e boa vontade sabem, da responsabilidade do exterior, do mundo exterior. Apenas ou sobretudo do mundo lá fora. “Lá”, a terra do mal e das campanhas negras (sobretudo, as ilhas britânicas e o seu império).
Logo, o mérito maior do PS é atacar também os nossos problemas lá fora. Leio no site do PS que essa tarefa coube a José Lello. Com a sua experiência na área do futebol planetário, não podemos querer mais. Este homem, na Geórgia, já enfrentou balas e ameaça de balas russas (se não estou em erro, e venceu-as!, mas não me lembro de grandes pormenores).
Vão pois ao site do PS, e, por favor, calem-se se não entendem a importância disto:
Reportagem da correspondente vanguard da Current TV: Mariana Van Zeller.
Uma hora de estórias, que não conseguem ser vistas em mais lado nenhum, e que versam sobre as vidas, as esperanças e os sonhos e medos de jovens que arriscam a vida para se fazerem ouvir.
Este programa especial inclui um olhar exclusivo sobre ser jovem no Irão, quer quando vão a festas alternativas/underground de dança, quer como polícia cultural/de costumes do Irão (Basij – Iran’s culture cops).
(a introdução é da Current TV e foi traduzida por mim. há também um trailer.)
Que insuportável pseudo-higiene da linguagem. Tomar cornos por chifres?
Chifres vem a ser coisa mais complexa,
Teria exigido, pelo menos, a articulação simultânea das braçadas de Pinho, Lino e Jaime Silva. Um elevado grau de concentração. E, certamente, uma coreografia arriscada.
Tem sido difícil. Estes meses foram mortais. A escolha do candidato das europeias foi um tiro de bazuca. Como de costume, contratam-me tarde e a más horas. Os cartazes já melhoraram, mas o resto é um desastre. O episódio da PT foi mais um tiro no navio almirante. O que vale é que a necessidade aguça o engenho. Depois do episódio do Pinho no parlamento decidi tomar medidas radicais. Está a ser um verdadeiro calvário. Foram horas intermináveis de media training, quase partia o mobiliário a ver tanta falta de jeito. Mas valeu a pena: A Maria Lurdes Rodrigues, o Jaime Silva e até o Mário Lino já conseguem fazer corninhos com os dedinhos. O governo está salvo, estamos mais perto de ganhar as eleições. Por via das dúvidas, já convenci aquele gajo que veste a versão Prada dos fatinhos Maconde do Pedro Silva Pereira a ensaiar o gesto.
O vídeo da reacção do ministro Manuel Pinho, em plena Assembleia da República, quando a bancada do PCP questionava o que Sócrates dizia sobre as minas de Aljustrel.
António Costa contra o governo – QUEM LEVA ISTO A SÉRIO??
NOTA: Não voto em Lisboa mas, se votasse, já se sabe: nunca votaria Costa contra Santana (nunca!!), nem Santana contra Costa (impossível!). E é isso que todos os eleitores da capital devem fazer: votar no projecto em que acreditam (aconselho-vos Ruben Carvalho, mas esse é um conselho meu – de resto, sois livres. Por certo. Mas perante isto tudo, comparado com os seus adversários, Ruben Carvalho nem precisaria de ter um programa “sério”, para ser um homem justo, sério e de confiança!).
Nuno Crato é Professor Associado com Agregação de Matemática e Estatística no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa. É pró-reitor para a Cultura Científica da Universidade Técnica de Lisboa.Licenciou-se em Economia no ISEG. Doutorou-se em Matemática Aplicada nos Estados Unidos e trabalhou depois nesse país muitos anos, como investigador e professor universitário. O seu trabalho de investigação incide sobre processos estocásticos e séries temporais com aplicações várias, nomeadamente computacionais, climatéricas e financeiras.
[ mais informação em www.iseg.utl.pt/~ncrato ]
Se eu tivesse de recomendar um escritor italiano, um apenas, talvez recomendasse Roberto Calasso, director da prestigiadíssima casa editorial Adelphi.
Saiu agora na Gallimard Le Rose Tiepolo/Il Rosa Tiepolo. É sobre Tiepolo, o mestre do século XVII, provavelmente a última grande glória clássica da arte italiana, mas não é um livro de arte nem de história de arte: é parte do género inclassificável de meditações de Calasso.
Na primeira página: “com Tiepolo, uma época se conclui para sempre”. “Tiepolo: o último sopro de felicidade na Europa”. Não é história da arte, é sempre outra coisa (a Cotovia publicou de Calasso: Os Quarente e Nove Degrause As Núpcias de Cadmo e Harmonia).