Este ajuste directo realizado pelo Banco de Portugal para a compra de, passo a citar, “Equipamento para golfe” no valor de 5.115,70€ e noticiado no i é inacreditável.
Vamos ver se aparece uma justificação.
P.S. – Entretanto parece que esta notícia já circulava aqui.
Para todos os que vêm com desconfiança os movimentos dos precários e como resposta aos cada vez mais residuais comentários sobre uma alegada linha anti-sindical que protagonizariam, é bom que leiam esta saudação ao congresso da CGTP-IN dos Precários Inflexíveis.
Cabeças de "pixota" frita, termo usado pelos pescadores para designar a conhecida pescadinha "de rabo na boca". Servida ontem, à hora de almoço, nas cantinas da Universidade de Coimbra. (Roubado no fb da Marta Roriz)
Cabeça de garoupa com embutido de camarões, acompanhado com açorda de ovas.
Em sentido inverso ao sentido da crise e com a intenção de cultivar o gosto por cabeças de peixe na comunidade estudantil, as cantinas da Universidade de Coimbra foram promovidas a espaço gourmet. Ao invés do sensaborão rancho, célebre no tempo das vacas gordas e sempre com o toucinho mal rapado, serve-se agora cabeça de pescadinhas fritas, vulgo “pixotas”, mas desta feita sem rabo na boca. É de louvar que a formação do gosto comece cedo, que isto de yes men a yuppie são dois dias.
Que o diga o Ricardo Morgado, que com escassos 24 anos o requinte no palato já lhe permite auferir 2.505,46€ pelo cargo de ”Especialista/Assessor” do Ministério da Educação e da Ciência. Que agradeça também a “Especialista/Assessor” Joana Maria Enes da Silva Malheiro Novo, que com 25 anos, com 3.069,33€ de salário e com um nome maior do que o seu local de trabalho, presta serviço no Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, MAMAOT para o os amigos, onde bem lhe dá jeito ter aprendido a escolher peixe. Já o “Especialista/Assessor” João Miguel Folgado Verol Marques, com 24 anos e com 3.069,34€, um cêntimo a mais do que a Joana Maria Enes da Silva Malheiro Novo, faz por governar a vida no Ministério da Economia. De volta à faixa etária dos 25 anos mas ainda no campo do “Especialista/Assessor” na tutela da Economia, Ana da Conceição Gracias Duarte é agraciada com 3.069,34€. Nas Finanças, onde há mesmo quem tenha que amanhar, damos conta do oficio de “Adjunto”, onde Carlos Correia de Oliveira Vaz de Almeida, de 26 anos, ganha calos de tanto debulhar cabeças. Pelo esforço, no entanto, e pelo risco agravado para a coluna, preserva o vencimento de um especialista: 3.069,33€.
Apesar de mandar os jovens à procura de oportunidades fora do país, não se pode dizer que o governo não esteja a fazer a sua parte. O Cavaco que se roa de inveja, seja dos estudantes, seja do governo.
Este cartaz do Artigo 21º é bem revelador da capacidade de economia do Cavaco Silva. O pobre presidente, ex-candidato a bufo e em tempos integrado na ditadura de Salazar, gasta o dobro do que o fanfarrão e espampanante rei de Espanha, num orçamento que faz inveja ao produto interno bruto do Tokelau e do Niue. Quem é assim com 16 milhões fora de casa, na gestão do trabalho, como é que haveria de ter facilidade em pagar as suas contas domésticas com pouco mais que 120 mil euros por ano?
Selecção oficial de Cannes, Apollonide é o retrato de um bordel francês na viragem do século XIX para o século XX, época plena de contradições e marcada por uma enganadora e virtual prosperidade. Trata-se de uma descrição profunda vista a partir do interior do estabelecimento (onde se passa quase todo o filme), da perspectiva e dos sentimentos da dona e principalmente das mulheres que aí trabalham.
Contudo, mais do que um filme atento aos pormenores e com uma realização muito cuidada (destaque para a imponência dos planos múltiplos), Apollonide é uma metáfora. Uma metáfora, por certo, ao cinismo da belle-epoque, mas principalmente a qualquer sociedade moralmente degradada e corrompida, aqui personificada por este bordel em decadência. E tudo isso fica claro nos 20 minutos finais, constituídos por prodigiosas cenas de cinema, como aquela em que as mulheres dançam ao som de “Nights in White Satin” dos Moody Blues. O remate perfeito de um belo filme.
“As gentes começam a juntar-se nas imediações do estádio por volta das 15h. Abrem-se as malas dos carros: há leitão, há cabrito, há tachos de arroz, há batatas fritas de pacote, há sacos enormes de pão, há azeitonas, há queijo, há grades de cerveja a perder de vista, há garrafões de vinho. Há cachecóis e bandeiras do Benfica. As gentes comem e convivem. Já são quase 18h. Assam-se umas chouriças ao ar livre. Mais pão. Mais azeitonas. Alguém pergunta pelo leitão. Já foi todo. E o cabrito também. Mais cerveja. Mais vinho. Mais convívio e mais Benfica. Já são quase 20h. As gentes guardam os despojos do banquete novamente nas malas dos carros e encaminham-se para o Marcolino de Castro. É um mar de gente. Aquele estádio minúsculo nunca na vida poderá albergar tamanha multidão. Mas as gentes não entram. Centenas e centenas de aparelhos de rádio são ligados. As gentes cantam pelo Benfica e aplaudem. O barulho é ensurdecedor. Lá dentro, os vinte e sete sócios do Feirense também aplaudem a sua equipa. Os jogadores do Benfica não vêem ninguém de encarnado nas bancadas mas sentem-se como se estivessem perante 65 mil almas na Luz. Sim, o barulho é realmente ensurdecedor. Cá fora canta-se o hino do Benfica a plenos pulmões e vozes entarameladas pela cerveja e pelo vinho. Os jogadores arrepiam-se. Um funcionário do Clube Desportivo Feirense dirige-se à turba e, hesitante, a medo, pergunta: “Mas… Não vão entrar?” A família benfiquista ignora o homenzinho, prossegue com os cânticos de apoio e, algures, um cartaz é erguido: “Vão roubar para a puta que vos pariu!“
Como acredito na boa fé de alguns dos seus subscritores, só me resta pensar que este manifesto foi um documento escrito há largos meses que terá impedido uma parte dos seus subscritores de levar em linha de conta que a UGT subscreveu um acordo de concertação social que não quer “pontes” com os trabalhadores ou que um “sindicalismo de proposta, de negociação e de diálogo social” são conceitos tenrinhos para o governo que se enfrenta. Aliás, a retórica da “proposta”, “negociação” e “diálogo” já está tão magistralmente resumida na abstenção violenta e outros dislates que não me parece que mais uma central sindical a depender do centrão seja grande ideia.
A petição que pede a demissão do Cavaco Silva já ultrapassou as 35 mil assinaturas e o número de subscritores continua a aumentar a grande velocidade. As iniciativas de repúdio sucedem-se e o estado de espírito nacional já foi capaz de remeter o Presidente da República a uma espécie de clandestinidade, uma vez que a sua agenda terá que ser adaptada à raiva da população. Acabaram-se as aparições públicas. As vernissages vão ter que ser à porta fechada, com policiamento reforçado e feitas às escondidas do país. As declarações medidas ao milímetro por uma corte de especialistas. Cavaco está refém da sua própria ignomínia e o governo exposto quer à injustiça das suas medidas quer à sua insanável demagogia. Chegou a hora do outrora “integrado” no regime salazarista, deixar de vez a cena democrática. Ele tornou-se na metáfora do obscurantismo em que vivemos e a face mais visível de um regime que está fora de tempo.
“A decisão de acabar com o programa da Antena 1 “Este Tempo” suscitou generalizadas acusações de censura contra a RTP. O diretor geral da RTP rebateu estas acusações, alegando que o fim do programa já estava previsto e não constitui, portanto, uma retaliação contra as críticas que aí emitiu o colunista Pedro Rosa Mendes (PRM) sobre o programa “Reencontro” de Fátima Campos Ferreira. PRM retorquiu que nas últimas semanas estava em discussão a alteração do formato jurídico do seu contrato, mas nunca se anunciara a intenção de acabar com o programa. E afirma que a decisão de acabar com o mesmo lhe foi comunicada como reação à sua crónica sobre “Reencontro”. No meio desta polémica, um primeiro ponto pode estabelecer-se como coisa certa: a RTP fez uma triste figura e alimentou, no mínimo, uma suspeição de censura que mesmo o desmentido do diretor geral não consegue dissipar inteiramente. Supondo que fosse falso tudo o que diz PRM sobre os preparativos para uma renovação dos contratos de “Este Tempo”, e que o fim do programa estivesse efetivamente previsto, pergunta-se: e ao dar a machadada final no programa não se percebeu como essa decisão, neste momento e neste contexto, só podia ser vista como censória? E não se percebeu como a acusação de censura lesava a imagem da rádio pública? E não se percebeu como esses estragos na imagem da RDP se tornavam duplamente graves na sequência dos estragos que o programa “Reencontro” tinha deixado no prestígio da televisão pública? E este é o segundo ponto que pode considerar-se estabelecido para além de qualquer dúvida razoável: ao escamotear a realidade angolana, o programa “Reencontro” deu, afinal, execução e cumprimento às recomendações de um relatório que a abominação pública parecia ter relegado, merecidamente, para o caixote do lixo da História – o relatório Duque. Nesse documento expendia-se a ideia peregrina de que a RTP devia tornar-se uma agência de comunicação do MNE. O programa “Reencontro” veio mostrar que o defunto relatório continua, por trás dos bastidores, bem mais vivo, perigoso e nefasto do que o clamor de repúdio da opinião pública parecia permitir. Admitindo que sejam certas as explicações dadas pelo diretor geral da RTP, fica ainda uma outra questão por esclarecer: em que conceção de futuro para a rádio e a televisão públicas se inscreve a decisão de acabar com o programa “Este Tempo”? Damos por suposto que não se tomam nesta casa decisões avulsas e que cada passo pontual corresponde a uma estratégia de maior fôlego – ou seria adiado até existir essa estratégia, com a vantagem adicional de ser dado em momento mais oportuno e sem o estigma desta aparência atentatória da liberdade de expressão. Ora, se existe uma estratégia já delineada, então está-se a proceder a uma reestruturação clandestina, evitando chamá-la pelo seu nome e evitando pôr as cartas na mesa. Talvez por isso, esta CT continua sem ser ouvida sobre o dito processo de reestruturação, como a lei determina.
O Ruy Braga, autor deste artigo que sai hoje na Folha de São Paulo, vai estar em Portugal dia 15 de Fevereiro para a abertura de um colóquio – Fordismo e Pós-fordismo - realizado pelo Grupo de Estudos do Trabalho e dos Conflitos Sociais do IHC. Eu, o Ricardo Noronha, o Zé Nuno Matos e o Zé Neves estamos na organização, que vai, esperamos, promover o debate e a compreensão do trabalho e do mundo no passado e hoje. Deixo aqui o artigo:
A rebelião do “precariado” europeu
Por Ruy Braga
O ataque aos direitos sociais na Europa defende os interesses da oligarquia financeira; estamos vendo o tempestuoso início de uma era de luta de classes
“Que mundo tão parvo Onde para ser escravo É preciso estudar” Deolinda, “Parva que eu sou”
Após a Segunda Guerra Mundial, o crescimento econômico europeu, associado à institucionalização de direitos sociais, pareceu eliminar a insegurança da relação salarial. Ainda que boa parte do trabalho intermitente e sub-remunerado continuasse sendo atribuída a jovens imigrantes, a combinação da proteção do trabalhador nacional com o consumo de massas (ou seja, a promessa do Estado social) se transformou em um poderoso amortecedor da luta de classes.
No início dos anos 1980, François Mitterrand resgatou do desterro o projeto da União Europeia. Aquela promessa ajudou uma Europa que tinha acabado de sair de ditaduras filofascistas (em países como Espanha e Portugal) e de uma experiência de luta armada (como na Itália e na Alemanha) a enfrentar a competição com o neoliberalismo estadunidense. Mesmo refém dos limites fiscais impostos pelo Tratado de Maastricht (um teto de 3% de déficit orçamentário), um continente unificado pelo binômio “eficiência e proteção” seduziu vários países do ex-bloco soviético e também parte significativa da imaginação política progressista global.
A atual encruzilhada europeia quebrou a promessa: os ajustes baseados na eliminação de direitos e os cortes orçamentários impostos pela “Troika” -a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional- recolocaram a insegurança no coração da relação salarial. Os alvos foram as economias mais castigadas pela crise econômica. Primeiro foi a Grécia, seguida de perto por Portugal e pela Itália. A recente rebelião do “precariado” europeu (ou seja, aquele setor da classe trabalhadora formado por jovens à procura do primeiro emprego, imigrantes e trabalhadores temporários) representa não apenas o fim de um ciclo de expansão econômica, mas o tempestuoso início de uma era de luta de classes.
“Geração à rasca”, “Movimento 15-M”, “Anonymous”… Não importam os nomes, a crescente degradação da proteção aos assalariados trouxe para a cena política uma fração de classe espremida entre a ameaça da exclusão social e o incremento da exploração econômica. A luta de classes tende a se orientar pelas características desse jovem “precariado”: trata-se de uma geração mais educada e internacionalizada do que seus pais, integrada “horizontalmente” em redes informacionais, além de divorciada por completo do pacto social do pós-guerra. Isso faz com que tanto a forma como o resultado da luta se tornem menos previsíveis.
Estive 3 meses a estagiar na Antena 1 e, tal como também deixaste claro, tive o privilégio de trabalhar com excelentes profissionais. Gente de valores que age de acordo com a sua consciência e com os princípios mais elementares da independência e da deontologia jornalística. Gente que seguramente está tão ou mais indignada do que nós e que sente na pele o desconforto das críticas fáceis que confundem a importância do serviço público com instrumentalização. Instrumentalização essa que, na realidade, tanto pode acontecer no público, como no privado, especialmente atendendo à acumulação de meios de comunicação social em grandes grupos económicos, que por sua vez podem ter fortes ligações ao poder político (isto anda tudo ligado, como também diz o Sérgio Godinho, que tão bem citaste).
Assim sendo, porque importa acabar com toda a bruma que rodeia este caso, queria pedir-te se podias explicar de forma sucinta o que sabes sobre o fim desta crónica, sobre como tudo se processou. Para que se perceba de que forma é que a mão invisível da censura atravessou tudo isto, quem terá responsabilidades e quem é inocente e para que não falte aquilo que tantas vezes escasseia neste país: transparência.
P.S: Os parabéns pela ousadia estendem-se naturalmente a Pedro Rosa Mendes.
Os trabalhadores dos transportes lutam por todos nós. Contra a destruição do serviço público de transportes. Luta tu também por eles. Divulga e exprime solidariedade com a greve.
Ah, e quando ouvires falar da burocracia dos sindicatos, lembra-te desta fotografia. E pergunta-te que fará pela luta dos trabalhadores, nas empresas, quem tão doutas palavras pronuncia.
Olá a todas e a todxs,
Um das bases fundadoras da democracia é a liberdade, e foi em nome da liberdade que eu fui convidada para fazer esta crónica na antena 1, há 2 anos.
Fui informada de que hoje é a última vez que vos falo. Tenho diante de mim 2 grandes profissionais da rádio, o Ricardo Alexandre e o António Macedo, com quem tive a honra de partilhar o inicio das manhãs de 3ª f e com quem aprendi muito, como aprendi com outros que não estão aqui, como a Alice Vilaça e o José Guerreiro, que fazem um excelente serviço público. A minha crónica era um espaço para mostrar o que de novo de passa em Portugal e no mundo. Para a fazer todas as semanas tive que estudar economia, sociologia, ecologia, política, história, a história do nosso país e a história das pessoas no mundo, como é que nós evoluímos, como é que nós saímos das cavernas e conseguimos hoje construir a paz, sistemas democráticos, como a longa luta pela justiça social e por uma vida digna foi decorrendo ao longo do tempo. Estudei como as pessoas que vivem aqui construíram este país, e como as que querem continuar a viver aqui e não querem ser obrigadas a emigrar podem lutar para defenderem os seus direitos e a democracia.
Ao longo dos 2 anos de fazer as crónicas, o número pessoas me escreviam no fim de cada emissão, na net, por mail, por carta, por mensagem, aumentou semana a semana. Para além do trabalho de investigação que fazia para cada crónica, comecei a dar voz ao que sentia e ao que as pessoas, cada vez mais pessoas, me escreviam.
As pessoas que me escreviam são as pessoas que vivem em Portugal, que estão a sofrer o ataque mais violento aos seus/nossos direitos fundamentais desde o 25 de Abril de 1974. Direitos que estão na nossa Constituição e que são a base fundadora da nossa democracia.
A nossa democracia está a ser atacada, e denunciar estes ataques e quem está a atacar os nossos direitos, a nós cidadãos, pessoas, e encontrar e propôr soluções concretas para sairmos desta crise foi sendo imperioso para mim. Porque cada vez mais as pessoas me escreviam no fim das crónicas, desesperadas, atiradas para a precariedade e para a pobreza, sem saberem como se defender. Fui a porta-voz de muitas pessoas que não têm voz, que encontro no metro, na rua, na mercearia, na escola.
Isto é uma radio pública. Paga com o nosso dinheiro, do nosso trabalho, do esforço que as gerações antes de nós fizeram, do esforço que todos fazemos para podemos viver em liberdade.
Para que serve uma radio pública ? Para que serve o serviço público?
Para dar voz às pessoas, para ser a expressão do que pensa um país, na sua diversidade e complexidade, nas suas diferentes opiniões ? ou para ser a voz do dono ? o serviço público tem como missão informar, e como tal tem que informar os ataques à nossa democracia.
Tive a honra de partilhar este tempo com o Pedro Rosa Mendes, o António Granado, o Gonçalo Cadilhe, a Rita Matos, um tempo de diversidade, como deve ser o serviço público.
Numa democracia o serviço público serve para ser a voz das pessoas. Numa ditadura serve para ser a voz do dono, ou seja do governo. Na nossa situação actual, temos um governo que nos manda a nós portugueses emigrar, e ataca os nossos direitos fundamentais. Por isso a rádio pública ser a voz do governo, não é sequer ser a voz daqueles senhores que alguns de nós elegeram, porque este governo é a voz da chaceler alemã, é a voz dos banqueiros alemães.
Os governos deixaram de nos representar, obedecem ao governo alemão que obedece aos banqueiros. E este sistema não funciona, estas medidas de austeridade não podem funcionar, porque são uma desculpa para irem destruindo aos poucos a democracia. E sem democracia entramos nas ditaduras disfarçadas onde temos mais pobreza, mais injustiça social, mais corrupção. Este sistema não serve as pessoas, serve os banqueiros. Por isso temos que criar novas formas de nos organizarmos e vivermos em sociedade.
Em muitos sítios do mundo há já projectos para tentar refundar a democracia, da Islândia, aos EUA, ao Brasil. Que têm a mesma ideia de base: os cidadãos não podem confiar mais na democracia representativa, porque ela já deixou de ser democracia, deixou de representar as pessoas. As pessoas, nós, temos que nos informar e juntar com amigos, colegas, vizinhos, no trabalho, na escola dos filhxs, no colectivo, no bairro, na associação, na junta de freguesia, na colectividade, vamos ter que nos juntar e auto-organizarmo-nos. Vamos ter que ser nós, pessoas, a estar à altura da gravíssima situação que vivemos, porque quem nos governa não está.
Como povo, passámos tempos piores do que este e soubemos levantar-nos do chão. Apesar daqueles que nos deviam liderar nos dizerem que nada valemos, somos melhores do que eles pensam. Somos melhores do que nós próprios pensamos. Nós não estamos condenados a esta humilhação. Sim, sairemos da nossa zona de conforto. Não para emigrar, mas para, como, cantava o Sérgio Godinho, fazer outra terra no mesmo lugar. Não será seguramente com esta gente. Será com gente que nos represente. Nós saberemos encontrá-la. Não desanimamos nem desistimos. Porque não há luta sem esperança, nem esperança sem luta.
Por isso 2012 é o ano dos desafios, de apresentar e operacionalizar as alternativas. De ganharmos coragem e responsabilidade. É o ano de perdermos o medo.
É a minha última crónica, não vos digo adeus, digo-vos até já!, vemo-nos nas ruas.
Cenas retiradas de “As bacantes de Eurípedes” de José Celso Martinez.
A esquerda ficou confusa com o facto da direita usar a sexualidade para debater a censura e a direita ficou confusa com o facto da esquerda não aceitar a censura sem sair do missionário. A esquerda, ao invés de espasmos de indignação, já tomava de assalto um qualquer estúdio da rádio pública, quanto mais não fosse para explicar aos amigos do casamento católico, apostólico e romano que eles estão para a política como a esquerda está para a cama. Está tudo no dicionário:
“Pan-passoscoelhidade, também referida como omni-cavacosilvalarvidade, refere-se ao potencial de atracção sexual, desejo sexual, amor romântico, ou atração emocional por pessoas de todas as identidades de género e sexo biológico, desde que estejam no governo. Auto-identificados, os pan-passoscoelhistas e os omni-cavacosilvalarvistas referem-se a si mesmos como género cego, no sentido em que a natureza deste é irrelevantes para determinar se eles serão sexualmente atraído por outros. O Dicionário de Inglês da Oxford descreve assim a pan-passoscoelhidade e a omni-cavacosilvalarvidade: “engloba todos os tipos desexualidade e não se limitada ou inibe na escolha sexual face ao sexo ou à experiência erótica”. O conceito de pan-passoscoelhidade e de omni-cavacosilvalarvidade rejeita deliberadamente o binário de género, a ”noção de dois sexos ou mesmo a de orientação sexual”. Como pessoas pan-passoscoelhistas ou omni-cavacosilvalarvistas, estão abertos a relacionamentos com pessoas que não se identificam estritamente como homens ou mulheres. Pode também significar a atracção com a personalidade de uma pessoa, ao invés de sua aparência física ou sexo. Em suma, o que unifica o amor pan-passoscoelhónico ou onmi-cavacosilvalarvista, é a sua identificação por aquele que lhe provoca desejo proporcione mais-valias, independentemente de tudo o resto.”